Crítica: Tropicália


 

Poucas frases são tão perfeitas para “Tropicália”, documentário de Marcelo Machado como seu sub-título: “Vocês não estão entendendo nada”. O filme se debruça sobre um dos mais criativos e originais movimentos culturais da história da música popular brasileira, aonde numa miscelânea de referências e utilizando-se de uma antropofagia Oswaldiana, absorveram a influência de criadores e de obras singulares como os Parangolés de Hélio Oiticica, o cinema udi-grudi de Julio Bressane e Rogério Sganzerla, assim como os filmes de André Luiz Oliveira e Glauber Rocha, além de José Celso Martinez Correia no teatro com seu “Rei da Vela”, beberam nessa fonte e a reprocessaram influenciando de volta esses mesmo artistas.

Nada é simples e fácil, nem a resposta para uma singela pergunta feita a Caetano num programa da TV portuguesa: O que é tropicalismo?  Numa montagem propositalmente caótica, o diretor Marcelo Machado não dá a resposta após os 90 minutos do filme, mas se nem Caetano consegue fazê-lo, quem conseguirá? Como explicar um movimento que quase que num delírio coletivo criou toda uma estética, um pensamento(mesmo que confuso) e obras singulares. Movimento que contava além de Gil e Caetano, com artistas da genialidade de um Tom Zé, Os Mutantes, Torquato Neto e Capinam, por exemplo.

Além dos depoimentos dos protagonistas do movimento(com exceção de Rita Lee, que só dá seu depoimento através de uma entrevista antiga) analisando imagens e fatos do período. Mas o grande êxito está nas belas e reveladoras imagens garimpadas pela produção, como o acima citado programa da TV portuguesa, na RTP, apresentado por Raul Solnado e Carlos Cruz(que só a título de curiosidade, se encontra neste momento cumprindo pena de 18 anos de cadeia acusado de pedofilia). Ali se percebe um Caetano visivelmente melancólico a caminho do exílio para Londres declarando formalmente o fim do movimento tropicalista. Assim como fascinam as imagens das apresentações de Gil e Caetano no Festival da Ilha de Wight. Sem contar aquelas imagens(que não canso nunca de ver) dos registros desse exílio feitos por Jorge Mautner, mais loucura impossível.

A tropicália conviveu diretamente com a ascensão da repressão militar no Brasil e dela foi vítima, incomodando-a com aquele surto de criatividade que era impossível para os burocratas do sistema catalogá-las e digeri-las. Não tardou a reagir com truculência extirpando da cena nacional um dos maiores e mais interessantes surtos criativos da contemporaneidade nacional.

Ao me levantar da cadeira tomei um tombo que caí nas escadas da sala de projeção(além do King Kong, ainda sinto as dores). Creio que as metáforas de Gil e o pensamento sem pé nem cabeça de Caetano me deixaram meio tonto.


Palpites para este texto:

  1. Eu acho a tropicália mais interessante que a bossa nova.Literariamente,talvez seja superior,além do Balaio de influências que só enriqueceu o movimento.

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