Um Dia a Casa Cai


 

Poucas coisas na vida eu odeio mais do que estar metido numa obra. Bem, nesse momento estou no meio de uma reforma no apartamento para onde irei me mudar em breve, pelo menos assim espero. Isso se o universo conspirar(como diria Paulo Coelho), se o dinheiro não acabar antes, se os operários cooperarem ou se eu não me jogar de uma janela até o fim da empreitada.

Decidimos que iríamos dessa vez contratar um arquiteto, algo que me deixou bastante feliz, tendo em vista que não teria que acompanhar o andamento da obra. Foi então marcado um encontro, lá estavam eu, o arquiteto, o homem do sinteko(que chamarei doravante nesse texto de sintekeiro), o marceneiro, o pintor, o eletricista e o gesseiro, enfim, era muito especialista na minha frente que me deixava até tonto. Rodavam o apartamento inteiro olhando cada pedaço do imóvel, analisando a estrutura, cutucando a parede e as portas e fazendo medições com suas trenas gigantescas. A todo o momento balançavam a cabeça negativamente e faziam: hummmmm. Cada gemido deles me dava calafrios. Pareciam peritos da Polícia fazendo análise do local do crime. As frases que mais ouvia eram “- isso não vai dar para fazer”, “- isso vai ser complicado”. Olhavam para mim em busca de uma solução. Conversavam com o arquiteto que traduzia para mim os questionamentos, aguardando uma resposta minha. Na verdade eu não tinha respostas, limitei-me a expressões bovinas, tipo: “Hã?” “Como assim?” O sintekeiro com ar preocupado, dispara: “- Vamos ter que fazer uma soleira debaixo dessa porta”. E eu que nem sabia o que era uma soleira. Meus especialistas continuavam sua perícia enquanto sentia-me como um inocente numa sessão de torturas obrigado a confessar um crime que não cometeu, desconhecendo quem o fez e não tendo a menor idéia de qual crime está sendo acusado. O orçamento final chegou 2 dias depois e com muitos números que me deixaram próximo de um AVC.

Não tinha jeito, teria que fazer a obra por conta própria, sair catando as diferentes especialidades e principalmente…teria eu mesmo que tomar conta da obra.

Levei alguns dias para arranjar um sintekeiro, isso após perguntar a meio Rio de Janeiro. Primeiro me indicaram o Sr Manoel. Liguei para sua casa tentando fazer nosso primeiro contato:
– O Sr Manoel está?
Uma senhora com uma voz baixinha respondeu: – Deus chamou.
– Hã? Como?
-A senhora repetiu com a voz embargada: – Deus chamou.
Acho que ela quer me dizer que ele morreu, pensei. É realmente o senhor Manoel tinha batido as botas e lá tive eu que ficar ao telefone consolando a pobre viúva que nessa altura chorava compulsivamente no telefone. Comecei bem.

Finalmente consegui arranjar um sintekeiro que ainda estava neste mundo, o Sr. Delecir. Olhou tudo, deu um orçamento interessante, mas sentenciou o mesmo que o outro: – Você vai ter que fazer uma soleira nessa porta. Pronto, lá vem a tal soleira novamente. Antes que o Sr Delecir pudesse trabalhar, tive que chamar um marceneiro para fazer a tal soleira. Mas como precisava contratar mesmo um marceneiro para trocar portas, rodapés, fazer estante e armário embutido, isso acabou não sendo grande problema.

Veio então o Seu Carlos, ao qual aprovei seu orçamento para esse pacote de serviços listados no parágrafo anterior. Precisava de mais urgente o raio da soleira para o sintekeiro começar a trabalhar. Não podia haver atrasos, porque já havia todo um cronograma estabelecido com o sintekeiro. Dois dias depois veio o Seu Carlos já com as portas novas, trocou os rodapés e começou a fazer a soleira. Maravilha, no dia seguinte o seu Delecir já poderia começar o sinteko. Mas aí seu Carlos me deu a noticia que precisaria de mais um dia para terminar a soleira.
– Mas seu Carlos, tem que acabar hoje, seu Delecir começa amanhã.
– Não tem problema, ele pode começar a trabalhar enquanto eu termino.
– Então tá.

No dia seguinte lá estavam os dois, seu Carlos e seu Delecir, cada um com um ajudante trabalhando lado a lado. Fui tranqüilo para o trabalho. Estive no apartamento na hora do almoço e lá continuavam meus profissionais trabalhando fraternalmente. Voltei pro trabalho.

Estava em minha mesa com um cliente importantíssimo, quando meu celular dispara. Pedi desculpas e interrompi rapidamente o atendimento para verificar o chamado.

– Seu Renato, é Delecir. O marceneiro saiu daqui há 1 hora e levou uma ferramenta minha na qual não tenho como prosseguir o trabalho hoje. Se ele não me trouxer a peça o trabalho vai atrasar.
– Pelo amor de Deus seu Delecir, não pode atrasar porque o pintor já está agendado para começar na 2ª feira. Vou ligar para o seu Carlos.

Sorrio amarelo para o cliente, peço desculpas e ligo para o seu Carlos. Explico a situação para o seu Carlos, que ao escutar o problema encosta o caminhão já na via Dutra e responde quase chorando do outro lado.
– Não, por favor, já estou quase em Japeri, não posso voltar. Ele verifica na sua bolsa e nada encontra do sintekeiro.

Nisso são dezenas de ligações triangulares entre eu, o sintekeiro e o marceneiro discutindo aonde está a tal peça, o meu celular não parava de tocar um minuto sequer com ambos se acusando mutuamente e eu doido para afogar os dois num tonel repleto de ácido sulfúrico de tanto ódio que eu estava, para depois de quase 1 hora descobrirem que a peça estava o tempo todo no apartamento, escondida debaixo de uma estante. Bem, obviamente meu cliente foi pro espaço.

Acabada essa fase, chegou a hora de entrar em cena o gesseiro, o pintor e o eletricista. Resolvi fundir as três funções numa pessoa só, o seu Wilson, uma espécie de faz tudo que já realizou inúmeros trabalhos na casa de minha mãe e que conheço bem. Seu Wilson tem uma série de qualidades: educado, polivalente, honesto, perfeccionista e acima de tudo tem um preço para lá de razoável. Mas com tanta virtude numa pessoa só, seu Wilson já deveria estar rico, né? Pois é, estaria se não tivesse também alguns defeitos: chega tarde( para lá de meio-dia), falta sem dar satisfação e é lennnnto. Mas contratei sabendo de todos os seus adjetivos, os positivos e negativos, achei que a equação custo X benefício valeria a pena.

O que me deixa tonto com seu Wilson são as solicitações, por exemplo:
– Preciso que você me compre um parafuso longitudinal
-Mas seu Wilson, tem algum tipo de especificação, algum modelo, marca?
– Não tem erro, é só pedir a de 3 milímetros.
Entro na loja cheio de segurança:
– O senhor tem parafuso longitudinal de 3 milímetros?
– Mas você quer o horizontal, o vertical ou o inclinado?
E lá vou eu ficar com cara de paspalho. Saco o celular para ligar para o seu Wilson, mas para variar seu celular está fora de área.
– Me dá os três tipos.

No dia seguinte me pede, sei lá, uma rebinboca da parafuseta. Seu Wilson me garante que não tem erro. Mas lá vem novamente o vendedor:
– Você quer a quadrada, a redonda ou a chapada?
– Hummmm…. Me dá as 3.

– Qual tinta branca você quer, a gelo ou neve?
– Socooooorro!!!!!!

Nesse momento, estou com seu Wilson, que vai realizando a pintura de minha casa como se estivesse pintando uma Igreja, ou seja, não acaba nunca. Faltou 2ª feira, resolvi não me stressar, dia do comércio, né? Faltou semana passada também, disse que torceu o pé, mas me lembrei que na casa da minha mãe ele sempre ficava doente justamente em dia de jogo do Brasil, puxa, que coincidência, não era justamente dia de jogo do Brasil aquele.

Hoje sábado, passei o dia na Leroy-Merlim, Tok Sok e Casa & Construção. Uma felicidade só! Comprando basicamente fechaduras e diversos tipos de luminárias. Você entra na Leroy-Merlim e tal como a Disney existe um mapa para você se localizar lá dentro. Depois fica uma espécie de animador(que eles chamam de promotor) anunciando pelo microfone a venda de um insiquereitor!!!! Não, ele jurava que não era nenhum produto das Organizações Tabajara, se tratava simplesmente de um triturador de produtos alimentares, óbvio que fiz questão de conhecer o insiquereitor e até fotografei. A vantagem do “animador” da Leroy-Merlim era que não feria nossos ouvidos com erros de concordância, como fazia a da Tok Stok que nos chamava de “caros cliente” e “poderíamos pagar em 10 vezes sem juro”. A ida nessas lojas de departamento desperta em mim uma curiosidade sobre um enigma das mulheres: por que diabos, se temos apenas que comprar fechaduras e luminárias, temos que andar tooooda a gigantesca loja? Por que não vamos logo para as fechaduras e luminárias? E lá íamos nós de seção em seção olhando escritórios, sofás, armários, utensílios, tapetes, jardinagem, etc. Nada que iríamos comprar. Enfim, às 10 da noite ainda me encontrava na Casa & Construção da Barra da Tijuca.

Perdido pelos corredores da Leroy-Merlim

O famoso Insiquereitor
E assim vou tocando minha obra. Mas ainda tenho algumas etapas pela frente: Falta chegar a estante e o armário embutido, o papel de parede, a rede de proteção nas varandas e a fase que mais me deixa arrepiado só de pensar: a mudança.

Talvez seja melhor colocar logo as redes na varanda. Não, não é para minha filha, é para impedir que eu mesmo me jogue da varanda.


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