Um Portenho


 

River desde chiquitito

O sentimento sempre me vem no momento que ouço Piazzolla, atingindo meu sistema emocional e tocando minha alma. O bandoneón do velho mestre é o start para esse estranhamento que não consigo definir e a partir daí todo um turbilhão de emoções se dá dentro de mim, deixando-me louco de vontade de ser argentino.

Tenho amigos plenos de desprezo pelo Brasil, afirmando que nada presta por aqui, que está tudo errado e repletos de amarguras, principalmente aqueles que passaram uma longa jornada no exterior. Não é o meu caso, sempre gostei de ser brasileiro, jamais trocaria minha nacionalidade, digo isso sem nacionalismos e sinto um bem estar de pertencer a este lugar. Mas em determinados momentos sinto esse estranho desejo. Nunca desejei ser americano, francês, italiano, ou coisa que o valha. Tenho até direito a obter a nacionalidade espanhola, mas nunca dei um passo em direção ao tão almejado passaporte europeu.

Hoje em dia quando caminho pelas calles do centro de Buenos Aires não me sinto um típico turistão, sinto-me um local, daqueles que já sabem toda a sequência de ruas a seguir e que fareja de longe os malandrões à espreita de um brasileiro otário pela calle Florida.

Sigo pelas ruas estreitas e confusas do centro e entro em algum restaurante tradicional de Buenos Aires, como o “La Estância”. Ali me sinto em casa, como se estivesse na “Majórica” do Rio de Janeiro, enquanto a Adriana já prefere os mais badaladinhos e moderninhos do eixo Palermo-Recoleta, como um “Sucre” e um “Gran Bar Danzon”. Quando você se torna um local, descobre que existe vida gastronômica inteligente fora do circuito de Puerto Madero, sem precisar ser assaltado pelos preços exorbitantes do “Cabaña las Lilas”, pois já sabe que come-se carnes tão boas quanto e pela metade do preço em outros pontos da cidade que não o velho porto. Mas isso não me impede de sentir enorme prazer de caminhar por Puerto Madero à noite com seus reformados armazéns à beira do Rio de la Plata numa noite de outono sentindo o vento frio acariciando meu rosto.

Até furtado já fui em Buenos Aires, mas isso quando eu era esse turista bobão, preocupado em ver a sacada da Casa Rosada ou ir até o Caminito tirar fotos com o sósia do Maradona. Tal como os argentinos na época do corralito, ali levaram meus dólares, felizmente foram só U$ 200,00.

Para se sentir verdadeiramente integrado a um país é necessário logo a escolha de um time de futebol, já tenho o meu, “soy de River, desde chiquitito”. Ser torcedor é acompanhar seu time até quando cai para a segunda divisão, o que para mim é uma tarefa simples, principalmente para quem já acompanhou o Fluminense na 3ª divisão. Mas esse ano Trezeguet vai liderar nosso retorno. Confesso que nunca botei os pés no Monumental de Nuñez, só estive na Bombonera daquele pessoal do Boca Juniors. Ô raça!

Ouço pelas ruas a voz de Charly García e logo reconheço seus versos de “Rascuñha las Piedras”: Detrás de las paredes/que ayer te han levantado/te ruego que respires todavía/apoyo mis espaldas y espero que me abraces/atravesando el muro de mis días/y rasguña las piedras/y rasguña las piedras/y rasguña las piedras hasta mí.

Me pego cantarolando e me apiedando por aqueles jovens de “La Noche de los Lápices”, vítimas inocentes da truculência de uma Ditadura insaciável.

É natural aumentar esse sentimento de querer ser argentino depois de passar uma tarde pelo acervo do “Malba”, se lamentando que nenhum magnata brasileiro tenha dado ao nosso país um museu como aquele que Eduardo Constantini deu para Buenos Aires e então lembramos dos métodos pouco ortodoxos que Chateaubriand se valeu para adquirir o acervo do “MASP”.

Mas a prova derradeira para se tornar um argentino de verdade, é ir ao “Locos por Futbol” num dia de Brasil X Argentina e torcer freneticamente pela Argentina. Bem, nessa prova não vou passar, jamais conseguirei torcer pela Argentina numa partida de futebol, mesmo em pleno “Locos por Futbol” cercado de Barrabravas. Não passarei na prova final para ser argentino, mas pelo menos provarei que sou macho para chuchu, linchado e espancado, é verdade, mas macho.


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