Voltando a Falar de Ética


 


Há cerca de um ano atrás escrevi um texto aqui no Botequim falando de ética, sobre seu conceito teórico e a sua má prática na vida contemporânea do Brasil e especificamente por parte do nosso Governador Sérgio Cabral(o link do texto está aqui: A Ética Segundo Sócrates, Cabral e Demóstenes ). Até hoje é um dos textos mais acessados do Botequim. Perdoem-me se volto a tema, mas para mim é inesgotável e fruto de permanente reflexão. De lá para cá, pouca coisa mudou na atuação ética do Governador, mas muita coisa mudou no inconsciente nacional.

Óbvio que esse conceito varia de pessoa para pessoa, mas temos que reconhecer que o Governador tem um conceito pra lá de elástico sobre o tema, como já pudemos analisar no seu “affair” com Fernando Cavendish, que já dissecamos nesse texto já citado.

Recentemente foi levado à tona o certo apego de Cabral por helicópteros. Na verdade, digamos que a imprensa foi durante 6 anos no mínimo omissa, para não falarmos de prevaricação(tá! Posso estar exagerando), pois qualquer cidadão carioca já tinha uma ideia sobre esses abusos, mas nunca a imprensa carioca se preocupou em aprofundar. Seria para evitar a perda de receitas de publicidade?(no melhor estilo Cristina Kirchner X Clarin), foi preciso a imprensa paulista(“Folha de São Paulo” e principalmente “Veja“) aproveitando essa onda de indignação que varre o país de norte a sul para que o assunto viesse à tona.

Novamente citando o texto anterior, é bom lembrarmos a fascinação que o Governador tinha pelos aviões de Eike, que entra na questão da elasticidade do conceito “ético”. Mas agora estamos falando de bem públicos, a frota de helicópteros pertencentes ao Estado do Rio de Janeiro(não confundir “pertencentes ao Estado do Rio de Janeiro” com “pertencentes ao Governador”).

Qual o problema de Cabral utilizar seus helicópteros em suas andanças pela cidade? Michael Bloomberg não faz o mesmo em Nova York? Só tem uma pequena diferença: o belo helicóptero de Bloomberg foi comprado e é mantido com seu dinheiro particular.

Agora vejamos: O Dr Sérgio Cabral sai de seu apartamento na rua Aristides Espínola, no Leblon, cercado de batedores(muito justo), para no heliporto da Lagoa e pega diariamente seu helicóptero para ir ao Palácio Laranjeiras. Se continuasse seu percurso de carro e com os batedores não levaria mais 10  minutos. Mas deve ser tão sem graça ter que pegar o Rebouças e descer o Cosme Velho. Lá em cima a cidade é tão mais bonita. Vejo Cabral e fico penalizado quando penso nos políticos suecos, que no exercício dos seus mandatos não tem a sua disposição carros oficiais. País miserável essa Suécia!

Segundo a revista “Veja”, o ilustre Governador, sua esposa, 2 babás e até o Juquinha, o cachorro da família, viajam todo fim de semana para sua residência em Mangaratiba(quando não está em Paris) a bordo de um helicóptero oficial. Eu também preferiria fazer tal trajeto por cima, afinal, a Costa Verde é tão linda. Mas pensando em cima do tema proposto neste post, vejamos: na sexta viaja esse povo acima citado, menos o Governador que vai no sábado. Nos domingos, são 2 viagens. Na primeira: Cabral, mulher, filhos e Juquinha. No segundo o já apelidado “voo das babás”. A coisa ganha maiores contornos de escândalo quando lemos as declarações de um piloto: “Já levamos para Mangaratiba, cabeleireiro,  médico, prancha de surfe, amigos dos filhos. Uma babá veio ao Rio pegar uma roupa que a 1ª dama tinha esquecido, Uma empregada veio fazer compras no mercado. É o helicóptero da alegria.

O que acho mais irônico é que ninguém nessa família ficou com trauma de helicóptero depois daquela tragédia toda em Trancoso. Mas talvez “trauma” seja coisa de gente pequena.

O Governador, fazendo biquinho e cara de ofendido respondeu de maneira quase infantil “…não sou o primeiro a fazer isso no Brasil, e fazemos de acordo com o cargo que ocupo. Não estou fazendo nenhuma estripulia, nenhuma novidade, Fico muito chateado de ver[a revista “Veja”] colocando meu filho de seis anos como se estivesse fazendo uma irregularidade”. Como disse Augusto Nunes na “Veja”, só falta o cachorro Juquinha dizer que sofreu bullyng. Lamento dizer, Governador, mas usar mesmo um simples carro oficial para levar o filho ao colégio já é falta total de compostura com a coisa pública.

Cabral ignora que o que é “legal” não é necessariamente “moral” e penso que igualmente o conceito de moralidade de alguém que resolve um dia abraçar a vida pública, deveria tê-lo no seu uso mais severo. O uso do avião de Eike é legal? Sim, mas em absoluto é moral! Sua relação com um empreiteiro como Fernando Cavendish é legal? Sim, a promiscuidade pode ser legal, mas é indecente.

Não posso chamar o Governador de ladrão. Não tenho provas e nem indícios de tais atos. Em tese o Governador é  um “homem decente”.  mas com certeza o Governador, no meu conceito do que seja ética e moral, tem tido uma quantidade enorme de atos antiéticos e amorais.

Hoje foi revelado que o filho do Governador, Marco Antônio Cabral, já recebeu 7 títulos de cidadão honorário de municípios como Duque de Caxias, Miguel Pereira, Belford Roxo, etc. Fiquei me perguntando: o que esse jovem rapaz, ainda estudante de Direito na PUC, fez de tão importante assim para receber tantas honrarias desse municípios? O que ele contribuiu para os melhoramentos e a cidadania desses lugares? Lógico que existe aí uma pavimentação para a construção de um caminho político. Mas me questiono ainda: Durante as cerimônias(algumas estão até no Youtube) esse jovem rapaz não sentiu nem um pouquinho de vergonha? Eu no seu lugar estaria roxo. Não teria ele autocrítica ou senso moral? Antes que o Governador se manifeste indignado pelo nome do seu filho vir a público, não fui eu e nem a imprensa que fomos as constrangedoras sessões públicas de uma câmara de vereadores do interior fluminense para recebermos tão nobres honrarias.


Helicópteros públicos, aviões particulares de terceiros, clientes do escritório da 1ª dama, viagens, amizade com empreiteiros, guardanapos na cabeça, etc,etc,etc…Definitivamente, eu e Sérgio Cabral temos visões distintas dessas belas palavras: “ética”, “moral”, “decência”.


Palpites para este texto:

  1. Eu sinto falta das crônicas…

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