\Crítica: Vou Deixar o Amor Pra Outra Vida


 

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Por Renato Mello.

Mais do que teatro, assistir “Vou Deixar o Amor Pra Outra Vida” é um convite para uma bela noite em que prazeres podem ser apreciados e diferentes sentidos podem ser simultaneamente aguçados. Tudo isso num apartamento em Copacabana, com pessoas agradáveis, bom vinho, ótima comida e acima de tudo: teatro vivo, pulsante e real ao nosso redor.

Foi uma noite tão intensa que a ideia de escrever uma crítica fria e distante, mesmo que utilizando adjetivos elogiosos, me parece algo que não condiz com a maneira calorosa com que nossos anfitriões nos receberam. Opto hoje por escrever num tom mais pessoal e em primeira pessoa.

Ainda na calçada da Rua Barata Ribeiro sou convidado a entrar num daqueles típicos prédios de Copacabana da década de 50. Subi o elevador sem convicção de ter anotado o apartamento correto e fiquei imaginando a cena de tocar uma campainha e dar de cara com uma velhinha a quem eu teria que perguntar se seria na sua residência a peça teatral.

Mas abriu a porta um rapaz sorridente, trajando uma toalha me convidando para entrar. Confesso que não imaginava uma sala tão ampla, dividida em 2 ambientes aconchegantes e uma agradável iluminação. Me encanto de cara com um enorme painel que ocupa toda uma parede. Os atores, alguns ainda de toalhas, outros de bermuda e sem camisa vão nos deixando a vontade. Com muita habilidade conseguem criar um clima íntimo entre os convidados, vinho chileno vai sendo oferecido. A campainha segue tocando para entrada de novos convidados. Somos em torno de 20.

VOU DEIXAR O AMOR 18nov

A interação e descontração inicial entre atores e convidados deixa-nos sempre meio desconfiados se já está acontecendo ali uma encenação. Podemos dizer que de certa forma sim. Os atores mantêm diálogos triviais sobre quando o outro vai começar a se trocar ou quem vai comprar o creme de leite. É importante ressaltar que em nenhum momento ocorre algum tipo de constrangimento, há sempre um grande respeito e que mesmo as pessoas aparentemente mais introvertidas em pouco tempo parecem estar relaxadas.

Não há o 3º toque da campainha para termos a certeza do que é real ou ficção. Fiquei pensando nas bengaladas de Molière. Teria uma relação mais direta, remetendo as apresentações realizadas em Versalhes de Luiz XIV em que não havia divisão rígida entre palco e plateia, quando as pancadas marcavam uma busca pela concentração da plateia. Então a atriz Carol Loback sai da cozinha com um copo na mão que começa a tilinta-lo com um talher. Vai então começar “Vou Deixar o amor pra Outra Vida”.

vou deixar o amor pra outra vida 28out2014

Vou Deixar o Amor pra outra Vida” é um texto escrito por Rodrigo Monteiro, o que por si só já é motivo de grande expectativa para mim. Trata-se sem dúvida um dos mais relevantes críticos de teatro do Rio de Janeiro. Pessoalmente, uma inspiração e uma referência. Nada mais natural que alguém que conhece teatro profundamente e ao mesmo tempo escreva com tanta qualidade, venha a desenvolver seu talento por diversos caminhos.

A direção é de Jorge Farjalla e a criação do Coletivo Capricórnio. O elenco formado por Carol LobackDiego Araújo,Matheus SilvestreIvan Vellame Diogo Pasquim (estes dois últimos se revezando alguns dias) circula pelo espaço físico do apartamento, criando 2 universos simultâneos e a 4ª parede acaba por se alongar até o público para leva-lo ao centro dos acontecimentos. A representação é dividida em 2 atos. Na primeira parte conhecemos os personagens por suas atividades: Filósofo, Economista e Diplomata, excetuando-se o personagem Carol(Carol Loback). Na segunda parte temos o Professor, o Cantor, o Guitarrista e agora Carol é a Jornalista.

O público é convidado para jantar com quatro amigos, todos eles dispostos a se libertarem da tarefa de amar”. Em meio da representação, o jantar vai sendo servido aos espectadores. No cardápio preparado pelo próprio encenador Jorge Farjalla, capeletti aos quatro queijos com molho de rosas, merengue de morango de sobremesa, tudo continuamente regado a doses generosas do vinho. Fumar é permitido, assim como atender o celular, trocar mensagens no What’s app ou postar no Facebook.

Relacionamentos  vão sendo abordados e discutidos despudoradamente, sem filtros, através de diálogos intensos e ações contundentes. O texto de Rodrigo vai descortinando a cada momento um novo cenário, enredando uma teia de traições, paixões e desamores, sempre explicitados com muita verdade pelo elenco.

A proximidade cênica, promovendo-nos a categoria de interlocutores, para os mais avessos como testemunhas, de discussões amorosas que carrega na matéria prima do seu texto uma enorme verdade que gera inteira identificação de todos. A direção de Jorge Farjalla explora habilmente a espontaneidade do elenco, com todos no mesmo (ótimo)nível de atuação e utiliza de modo eficiente todos os espaços físicos possíveis, colocando cada um dos 20 convidados no meio da narrativa. O público fica inteiramente absorto com a movimentação e as ações. De repente, um ator abre a janela e todo o som da Barata Ribeiro invade o apartamento, dando uma sensação de estarmos vivenciando realidade. Somos muitas vezes convidados a concordar ou emitir algum tipo de opinião, mas sem nos sentirmos obrigados. Caso optemos pela distância, um aceno de cabeça já é suficiente, pois a peça é interativa, mas não obrigatoriamente participativa.

Vou Deixar o Amor Pra Outra Vida” é para ser apreciado em todas as suas possibilidades. É vida real, é representação. É o que de mais belo o teatro pode nos dar, mesmo num apartamento em Copacabana.

vou deixar o amor pra outra vida 4nov2014

Ficha Técnica
Texto: Rodrigo Monteiro
Direção e Encenação: Jorge Farjalla
Elenco: Carolina Loback, Diego Araujo, Diogo Pasquim, Ivan Vellame e Matheus Silvestre
Cia Coletivo Capricórnio
Produção: Talitha Caetano e Diogo Pasquim.

Serviço
Espetáculo: Vou Deixar o Amor pra Outra Vida
Texto: Rodrigo Monteiro
Direção: Jorge Farjalla
Gênero: comédia romântica
Elenco: Carolina Loback, Diego Araújo, Diogo Pasquim, Ivan Vellame e Matheus Silvestre
Local: apartamento em Copacabana
Reestreia: 28 de outubro, terça-feira
Temporada: de 28 de outubro até 17 de dezembro – somente às terças e quartas
Preço: R$ 40,00 (valor único que já inclui ingresso e jantar)
Reservas: coletivocapricornio@gmail.com e mais informações (21) 98899-6061
Horário: 20hs
Duração: 1h
Classificação: 18 anos

 


Palpites para este texto:

  1. Regina Cavalcanti -

    Adorei a peça, super divertida e interessante! Parabéns pela linda resenha

  2. Regina Cavalcanti -

    Peça divertida, diferente e super interessante

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