Wilson Baptista, o Samba foi Sua Glória!


 

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Por Renato Mello.

Enquanto lia “Wilson Baptista, o Samba foi Sua Glória!”, escrito por Rodrigo Alzuguir e lançado pela Casa da Palavra, resolvi entrar no Youtube e procurar alguma imagem em movimento do biografado. Não acredito que seja surpresa dizer que não encontrei. Tente o leitor fazer o mesmo com qualquer grande nome da música americana ou francesa e tenho certeza que terá mais sucesso. Não faltam imagens de nomes como um Benny Goodman ou Maurice Chevalier e para ficar mais perto de nós, Carlos Gardel. Quantas imagens em fotogramas conhecemos de Noel Rosa? Estou me referindo a alguém que talvez tenha sido o maior compositor da nossa história. Eu só tenho conhecimento de parcos segundos da famosa gravação com o Bando dos Tangarás.

Utilizo esse longo preâmbulo para tentar demonstrar a importância de um trabalho como o realizado pelo músico e pesquisador Rodrigo Alzuguir, justamente após termos assistido recentemente um debate absurdo em que um grupo de conceituados e respeitados artistas da nata da MPB impunham uma posição anacrônica de cerceamento desse gênero literário, a biografia. Num país em que os registros documentais, cinematográficos e fonográficos se perdem ao longo das décadas em estantes de bibliotecas e arquivos em meio a fungos, enchentes, incêndios e descasos, o ofício do biógrafo é fundamental para trazer à tona nomes submersos e esquecidos no fundo do baú da nossa história. Um trabalho heroico e quixotesco, em que muitos casos recursos pessoais são dispensados, além de obrigar o autor a abrir mão de momentos pessoais em repartições públicas analisando documentos e ouvindo depoimentos.  Ao contrário do que alegou recentemente Djavan, não me consta que nenhum deles tenha ganho fortunas.

No finalzinho de 2013 Rodrigo Alzuguir lançou seu trabalho biográfico desse gênio da música brasileira que foi Wilson Baptista. Compositor dos mais importantes de nossa história e autor de clássicos imortais, que as atuais gerações atuais simplesmente desconhecem ou tem uma vaga referência através da polêmica musical com Noel Rosa.

O trabalho de pesquisa acabou sendo mais abrangente que o livro, com direito a espetáculo protagonizado pelo próprio Rodrigo, em conjunto com Claudia Ventura (que atualmente pode ser vista numa grande atuação no belíssimo espetáculo teatral “As Bodas de Fígaro”, além de um ótimo CD que contém gravações dos seus clássicos por artistas como Wilson das Neves, Nina Becker, Zélia Duncan, Teresa Cristina, Elza Soares, Marcos Sacramento, Cristina Buarque, Céu, Rosa Passos, Mart’Nália, entre outros, além do recentemente falecido e inesquecível Roberto Silva.

Mais do que conhecermos a vida de Wilson Baptista, Rodrigo nos convida de maneira deliciosa e com um texto bastante agradável a acompanhar através do seu biografado, toda a evolução da música brasileira a partir da década de 30 até os anos 60. Justamente em um período em que a primeira grande geração do samba, como Donga, Sinhô e João da Baiana, começa a passar o bastão para músicos que começam a dar a esse gênero musical uma cara mais próxima do que entendemos como samba, deixando de lado o ritmo mais amaxixado dos primórdios. É justamente o momento em que surge uma geração, que possivelmente em pé de igualdade com a surgida nos anos 60, seja a mais fértil e talentosa da nossa história. Wilson se criou no samba em meio a um ambiente que tinha nomes do quilate do próprio Noel Rosa, Ary Barroso, Lamartine Babo, Assis Valente, Ataulfo Alves, João de Barro, Vadico, Mario Lago, Marino Pinto, Hervê Cordovil, Dorival Caymmi e uma penca interminável de gigantes.

Entre as criações de obras imortalizadas de Wilson Baptista, como “Oh! Seu Oscar”, “Bonde de São Januário”, “Acertei no Milhar”, “Pedreiro Waldemar”, além de outras centenas de sua autoria(sem contar as vendidas para outros “compositores”, prática comum na época e muito bem descrita no livro), mais que a evolução da música brasileira e da sua vida, a cidade vai sendo detalhadamente esquadrinhada e acompanhando seu desenvolvimento urbano, político e de costumes. As descrições dos locais de onde o samba vem, como a Praça Tiradentes, o Estácio, o Café Nice e a Lapa vão ganhando força, a ponto de conseguirmos nos imaginar naquele Rio de nostalgia que tanto encanta os que, como eu, amam esta cidade e sua história.

Sobre o livro, Rodrigo declarou em recente entrevista ao jornal gaúcho Zero Hora:

Alguns compositores do passado chegaram até nós também porque tiveram a sorte de contar com quem cuidasse da memória. O Wilson não teve isso. Morreu esquecido em 1968, a obra dele estava bastante abandonada, e tem muita gente que associa Wilson apenas à polêmica com Noel Rosa. Ele perdeu o bonde do resgate”.

Logicamente que a obra de Wilson Baptista é muito maior que a mera troca de farpas com Noel Rosa, mas só pelo fato de ter sido um “muso inspirador” às avessas de um samba com “Palpite Infeliz”, de Noel Rosa, já bem vale uma vida. Mas é inegável que o episódio desperta enorme curiosidade. Em seu já clássico livro “Noel Rosa, uma Biografia”(tantos anos proibido de ser reeditado!), João Máximo e Carlos Didier mencionam:

No que diz respeito a Wilson, não há de ser por essa rixa sonora que se tornará alguém na vida. Seu tempo há de chegar. Por força do próprio talento e não às custas do nome de Noel, por quem, afinal, guardará até morrer um grande respeito e confessada admiração”.

Sobre o tema, abordado detalhadamente por Rodrigo, conclui após o capítulo que narra a morte do poeta da Vila:

Na verdade, em termos de reverência a Noel, Wilson iria mais longe do que muitos amigos do poeta. Além de, sempre que possível, deixar clara a sua admiração por Noel(‘Foi o gênio da nossa música’, diria com humildade) e o desconforto por ter feito ‘Frankenstein da Vila’(‘Guardo certo arrependimento’, apesar de que ‘não há nada demais em se chamar um homem de feio’), ao receber a notícia, em São Paulo, a notícia da morte do colega, ele compôs, ‘como derradeira lembrança ao querido compositor falecido, um lindíssimo samba intitulado ‘Grinalda’’, segundo informou a revista Carioca, na coluna ‘PR-Bandeirante’. Apresentada em rádio por Wilson, mas jamais gravado. ‘Grinalda’, infelizmente, se perderia”.

Além do ótimo texto que nos guia pelo universo de Wilson Baptista, o livro, traz ainda um vastíssimo trabalho iconográfico, recheado de fotos de diversos momentos de sua vida e de sua época, assinado pelo próprio autor, além do levantamento detalhado de uma quantidade enorme de discografia, igualmente sob a responsabilidade de Rodrigo, com organização de revisão feitos por Alexandre Medeiros.

Com “Wilson Baptista, o Samba Foi Sua Glória!”, Rodrigo mostra que é possível sim fazer uma biografia que seja fiel, respeitosa, não invasiva e sem que seja necessário ser “chapa branca” para unir tais atributos.

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Rodrigo Alzuguir recebendo o Prêmio Botequim Cultural – Melhor Biografia

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Por esse trabalho, Rodrigo Alzuguir recebeu o Prêmio Jabuti com o 2º lugar na categoria Biografia. O 1º lugar foi para o não menos brilhante 3º volume de “Getúlio”, de Lira Neto. Modestamente, o nosso site também prestou um singelo reconhecimento a essa obra com sua vitória na edição deste ano do Prêmio Botequim Cultural como Melhor Biografia.

Todas as loas são merecidas para “Wilson Baptista, o Samba foi Sua Glória!


Palpites para este texto:

  1. Gostaria de contato tanto com Rodrigo autor como com a produtora Saravá Cacilda Projetos Culturais.
    Cacildaseabra@yahoo.com.br

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