Xingu


 


Trailer

Cotação: Bom

Fazer uma grande produção em plena floresta e repleta de índios nunca foi tarefa fácil, que o digam experimentados diretores como Ruy Guerra e Hector Babenco, com “Kuarup” e “Brincando nos Campos do Senhor”, respectivamente. Ambos possuem um diário cheinho de traumas e problemas, descobrindo na base do sofrimento pessoal o quão infernal pode se transformar tal empreitada.

Na verdade os cineastas brasileiros nos devem um grande filme sobre essa temática, falta um clássico nacional, ao contrário de outros gêneros nacionais como o Favela-Movie ou o Nordestern. “Kuarup”, por exemplo, é um filme que gosto muito, apesar de suas falhas, principalmente por um problema gravíssimo de escolha de elenco. Taumaturgo Ferreira no papel do Padre Nando é um desastre que consegue derrubar o filme. Houve ainda outras tentativas nada bem sucedidas como “Iracema, uma Transa Amazônica”, de Orlando Senna, “Avaeté”, de Zelito Vianna, “Índia, a Filha do Sol”, de Fábio Barreto e “Serra da Desordem”, de Andrea Tonacci”, todas essas tentativas com um lugar cativo no nosso desprezo.

Com um grande orçamento de 14 milhões, dessa vez quem se aventurou foi o competente Cao Hamburguer, que anos atrás dirigiu o belo “O Ano que meus Pais Saíram de Férias”. Ainda não foi dessa vez que saiu o clássico sobre o tema, mas pelo menos Cao conseguiu realizar um filme épico, muito bem produzido e de alta qualidade artística. Certamente superior aos demais filmes citados nesse texto.

A produção é muito caprichada, direção de arte e fotografia impecáveis. A trilha sonora, com temas indígenas é algo que também me chamou a atenção. Tinha algumas reticências iniciais quanto ao elenco principal, mas Felipe Camargo e João Miguel interpretam com maestria e intensidade seus personagens, apenas Caio Blat está num nível um pouco inferior. Alguns críticos afirmam tratar-se do melhor desempenho cinematográfico de Felipe Camargo, discordo. Seu grande momento foi sua exuberante atuação no ótimo e desapercebido “Jogos Subterrâneos”, de Roberto Gervitz.

“Xingu” narra a saga pioneira dos irmãos Villas-Boas(Orlando 1914-2002, Cláudio 1916-1998 e Leonardo 1918-1961), vividos por Felipe Camargo, João Miguel e Caio Blat, respectivamente, desbravando o interior do Brasil, pelas veredas do desabitado e inóspito centro-oeste, quando Brasília não era nem uma miragem no horizonte. Partem em 1943 na expedição Roncador-Xingu, criada pelo governo federal com o objetivo de desbravar essas áreas que ainda apareciam em branco nas cartas geográficas brasileiras. Os primeiros índios com quem se deparam não passavam de um mero obstáculo ao objetivo inicial. Mas ao contrário do que aconteceria no cinema americano, a tolerância e a busca do entendimento da cultura alheia é o caminho trilhado pelos irmãos, que a partir daí buscam novos objetivo, através a persuasão política para a conscientização da importância da preservação indígena no seu ambiente natural, se tornando os principais artífices da luta pela sua proteção.

Seu grande legado foi a criação do Parque Nacional do Xingu em 1961, definido por eles como “um Estado dentro do Brasil”, um território de dimensões superiores ao da Bélgica que Conta com 27 mil quilômetros quadrados situada ao Norte do estado de Mato-Grosso. Atualmente, habitam a área do Xingu 5.500 índios de 14 etnias diferentes e considerado pela UNESCO como o mais belo mosaico linguístico puro do Brasil.

Cada país glorifica seus heróis, os americanos o fazem com o General Custer, um genocída de índios, nós temos o Marechal Rondon e os irmãos Villas-Boas para reverenciar.


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